Encontro será realizado no dia 17 de setembro, no Auditório São José, e integra a proposta do Mês da Bíblia 2026, que neste ano tem como livro de estudo Daniel e como lema “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14)
O livro de Daniel será tema de uma noite de formação promovida pela Diocese de Erexim no dia 17 de setembro, quinta-feira, das 19h30 às 21h30, no Auditório São José. A atividade é aberta às pessoas interessadas e, de modo especial, às lideranças das comunidades, pastorais e demais organismos da Diocese.
A formação integra a proposta do Mês da Bíblia 2026, que neste ano tem como livro de estudo Daniel e como lema “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14). A atividade será uma oportunidade para aprofundar o contexto histórico, a linguagem e a mensagem do livro bíblico, marcado por narrativas de resistência, fidelidade a Deus e esperança diante da perseguição.
A reflexão sobre o tema foi preparada pelo padre Jair Carlesso. Em artigo assinado pelo padre, que é coordenador diocesano da Ação Evangelizadora, é apresentado o contexto em que o livro de Daniel foi escrito, sua linguagem simbólica e sua organização, além de destacar a mensagem de esperança e resistência presente na obra.
Segundo o padre Jair, Daniel nasceu em um contexto de opressão e perseguição religiosa durante o domínio grego sobre Israel. A partir dessa realidade, o livro utiliza a linguagem apocalíptica para apresentar uma leitura da história e sustentar a esperança daqueles que permanecem fiéis a Deus.
A formação do dia 17 de setembro permitirá aprofundar esses aspectos e contribuir para a compreensão do livro que orienta o Mês da Bíblia deste ano.
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Confira o artigo do Padre Jair Carlesso na íntegra:
Daniel

“Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14)!
Daniel, livro do Mês da Bíblia 2026
O Mês da Bíblia deste ano (2026) propõe a leitura e o estudo do livro de Daniel. Os personagens do livro – Daniel, Sidrac, Misac, Abdênago, Susana… –, em meio às contrariedades da vida, souberam manter-se fiéis a Deus. Em um tempo marcado por medos e inseguranças, Daniel nos ensina a viver com sabedoria e discernimento, mostrando que a verdadeira segurança não está no poder dos grandes impérios, pois todos passaram, mas na fidelidadea Deus e em seu Reino, um Reino que “jamais passará” (2,44; 7,14).
Daniel é um dos livros mais recentes do Antigo Testamento, sendo sua redação final concluída em torno do ano 165 a.C., quando a profecia clássica não era mais ouvida, pois diziam: “Não existem mais profetas” (Sl 74,9; 77,9; 1Mc 9,27).
Diante da dureza da opressão e da perseguição grega sobre o povo de Israel, e num momento em que a inspiração parecia estar esgotada, surge a Apocalíptica, com uma grande força criativa e de resistência.
Contexto e linguagem de Daniel
Desde 740 a.C., o povo de Israel viveu sob domínios estrangeiros. De 333 a 63 a.C., Israel estava sob o domínio grego. Além da força militar, os gregos se impuseram com a força cultural. Entenderam que a religião de um povo era/é a forma de resistência e de conservação da própria identidade. Por isso, para impor sua cultura, seu modo de pensar e agir, procuraram destruir a religião do povo de Israel.
Antíoco IV Epífanes, rei grego que atuou de 175 a 164 a.C., profanou o templo de Jerusalém (1Mc 1,21-24), determinou que todos os judeus renunciassem às suas tradições e adotassem os costumes gregos (1Mc 1,41-44), impediu os holocaustos, profanou o Sábado e Festas religiosas, colocou Zeus, divindade grega, sobre o altar, queimou o Livro da Lei, proibiu a circuncisão e determinou a pena de morte a quem persistisse na tradição judaica (1Mc 1,45-61).
Daniel é um livro bíblico que nasceu sob essa realidade, faz parte do movimento apocalíptico que surgiu nesse contexto. Por isso, Daniel é literatura de resistência dos oprimidos, um livro de combate e de oposição à opressão imperial e quer gerar consciência crítica e esperança no povo.
O movimento apocalíptico nasce do lado de quem sofre a história, mas quer continuar a crer que é possível uma saída; por isso mantém a fé no “Deus único” (Dn 3,45), no “Deus dos pais” (Dn 3,26.52), no “Deus dos profetas”, Aquele que é o Deus Criador e Libertador, o “Deus vivo” (Dn 6,21.27; 14,5.25). Os apocalípticos creem que, por mais força que os impérios têm, eles passam. Somente o Reino de Deus permanecerá para sempre (Dn 2,44; 6,27; 7,14).
Por isso, a linguagem de Daniel é fortemente simbólica, compreensível aos grupos iniciados no movimento apocalíptico. Os principais recursos do livro são: a) a pseudonimia:usar nomes de personagens antigos para falar das pessoas do momento presente; b) a antedatação: falar do presente como se tivesse acontecido no passado; c) os sonhos:constituem-se em profundas análises da realidade; d) as visões: têm a mesma função dos sonhos e são apresentadas como revelações feitas pelo próprio Deus. Por isso, o livro, enquanto narrativa, não faz uma crônica da história de Israel, mas usa de personagens e acontecimentos do passado, com muita liberdade, para falar do momento presente.
O livro de Daniel
Na Bíblia Hebraica, Daniel encontra-se entre os Escritos, ou seja, os livros Sapienciais. Na Bíblia Grega, Latina e em nossa Bíblia, encontra-se entre os livros Proféticos. Daniel é o único livro bíblico da Sagrada Escritura escrito originalmente em três línguas: Hebraico (Dn 1,1–2,4a; 8–12); Aramaico (Dn 2,4b–7,28) e Grego (Dn 3,24-90; 13–14). Por isso, na origem dos textos estão mais do que um autor.
O livro de Daniel divide-se em três partes:
1ª) Dn 1–6: Daniel e seus três companheiros na corte de reis pagãos. Fiéis à Lei de Israel, resistem às propostas dos reis e saem vencedores e o Deus dos judeus é reconhecido como o “Deus vivo” (6,21.27) e o único Deus verdadeiro (6,27-28). Os temas de cada capítulo são: Dn 1 > Os jovens na corte; Dn 2 > A estátua e a pedra; Dn 3 > A fornalha acesa – oração; Dn 4 > A árvore e o vigilante; Dn 5 > O banquete de Baltazar e a mão misteriosa; Dn 6 > Daniel na cova dos leões.
2ª) Dn 7–12: descreve cinco visões apocalípticas, que revelam o juízo de Deus sobre a história. Tratam-se de revelações feitas a Daniel. Tais visões são uma leitura do conflito entre a comunidade judaica, fiel às suas tradições, e a helenização, que era imposta à força pelos gregos. Os temas dos capítulos são: Dn 7 > Visão dos 4 animais, do Trono e do Filho de Homem; Dn 8 > Visão do carneiro e do bode; Dn 9 > Oração de Daniel e visão das 70 semanas; Dn 10-12 > Visão do homem vestido de linho e o Tempo do Fim.
3ª) Dn 13–14: são três relatos cujo tema central é a luta contra o imperialismo grego e seu sistema injusto: Dn 13 > Susana e o julgamento de Daniel; Dn 14 > Bel e o dragão.
No seu conjunto, o livro de Daniel tem por objetivo cultivar a esperança, sustentar e fortalecer a resistência dos oprimidos. Para Daniel, todos os impérios passam, somente o Reino de Deus é eterno (Dn 2,44; 6,27; 7,14). Convoca a todos a resistirem: “Bem-aventurado aquele que perseverar…” (Dn 12,12).
Dn 11,40-45 descreve o “tempo do Fim” (v.40), ou seja, projeta o fim do opressor: “E chegará a seu termo, sem que ninguém lhe venha em auxílio” (v.45). E em 12,1-4, Daniel trata do destino dos fiéis e dos infiéis, a ressurreição. O v.2 é central: “E muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbrio, para o horror eterno”.
Ao falar de “vida eterna”, o texto mostra que a justiça divina se completa além da história. A ressurreição mostra que o sofrimento dos fiéis justos não é esquecido por Deus. Ao afirmar que a morte não é o fim da história, Daniel abre o horizonte da esperança escatológica.