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O permanente desafio da opção pelos pobres segundo a Dilexi Te (cap. 5, 103 a 121)

O permanente desafio da opção pelos pobres segundo a Dilexi Te (cap. 5, 103 a 121)

No contexto familiar, a atenção preferencial sempre é dada (ou deveria ser) ao mais frágil, pois se encontra em situação de precariedade, de urgência, ou seja, não pode esperar. Realidade semelhante se verifica no ambiente hospitalar, quando a preferência é geralmente dada aos casos mais graves, porque cada segundo conta para salvar uma vida. Poder-se-ia dizer que tal sentimento é uma virtude divina, que, ao ser cultivada, frutifica no cotidiano da pessoa.

Na Sagrada Escritura, dois episódios revelam bem essa opção preferencial pelos que estão à margem: Deus escuta o clamor do seu povo e desce para libertá-lo (Ex 3,7); Deus ama tanto o mundo que entrega o seu único Filho, para que todo aquele que nele crê tenha a , vida eterna (Jo 3,16). Ele Se faz carne, saindo da Sua majestade, tornando-Se fraco com os fracos, não para tornarem-se dois fracos, mas para ser forte. Trata-se de uma fortaleza de natureza específico. Nunca é forte no sentido de submeter o fraco. O amor pelos pobres é um elemento essencial da história de Deus conosco e irrompe do próprio coração da Igreja, como apelo contínuo ao coração dos cristãos (DT, 103). “[…] o amor aos pobres – seja qual for a forma dessa pobreza – é a garantia evangélica de uma Igreja fiel ao coração de Deus” (DT, 103).

    O Santo Padre convida a religião cristã, os cristãos, os seguidores de Cristo a cultivarem o espírito de bom samaritano, que diante da situação do homem caído nas mãos dos assaltantes. Teve compaixão, aproximou-se dele e o cuidou. Nós cristãos hoje, devemos ter a certeza que esta opção é parte integrante da nossa fé; fé transformada em gesto de compaixão e solidariedade. Também precisamos reconhecer a dificuldade de assumir-se como samaritano, de fazer a opção e sustenta-la nos tempos atuais.

A Igreja, como corpo de Cristo, sente como sua própria “carne” a vida dos pobres, que são parte privilegiada do povo a caminho. Negar ou negligenciar a opção pelos pobres é uma infração gravíssima dos seguidores de Jesus Cristo. Não se trata de uma atividade de um grupo específico da Igreja. Essa relação exige dedicação, tempo, atenção, escuta com interesse, acompanhamento e engajamento pela transformação das injustiças e misérias. Ser cristão é um modo de vida que segue os passos do próprio Jesus.

Num ambiente de vida ocupada e de agenda cheia, como na sociedade atual, do trabalho e da performance, olhamos para os pobres como intrusos, estranhos que representam ameaças ao nosso bem estar; são um problema que os políticos devem resolver; ou talvez os comparamos ao “lixo que suja o espaço público”. Esquecemos que eles são seres humanos com a mesma dignidade que nós, uma criatura infinitamente amada pelo Pai, uma imagem de Deus, um irmão redimido por Jesus Cristo.

Os pobres são para nós como mestres silenciosos, reconduzindo o nosso orgulho e convertendo nossa arrogância em humildade. Eles, no silêncio da sua condição, estão evangelizando, à medida que nos colocam diante da nossa fraqueza. O idoso, por exemplo, com a fragilidade do seu corpo, lembra-nos a nossa vulnerabilidade. Além disso, os pobres fazem-nos refletir sobre a inconsistência daquele orgulho agressivo com que muitas vezes enfrentamos as dificuldades da vida. Em suma, eles revelam a nossa precariedade e o vazio de uma vida aparentemente protegida e segura.

Para entrar verdadeiramente neste mistério, a Igreja pobre para os pobres, deve começar a dirigir-se à carne de Cristo, identificar no corpo do sofredor a carne de Cristo. Os pobres ocupam um lugar central na Igreja, porque a opção por eles deriva da nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres e marginalizados. Quem serve ou ajuda um pobre, o faz em e à Cristo, isto é ‘cristo se serve a cristo’ (cf. Gal 2,20 e Mt 25, 40).

A exortação toca explicitamente no tema da esmola, indicando que ela continua a ser um momento necessário de contato, encontro e identificação com a condição do outro. Para quem ama de verdade, a esmola a um pobre, deve ser feita em atitude de olhar nos olhos a pessoa, tocando-a e partilhando com ela algo do que tem. A esmola, mesmo que pequena, expressa: fazer alguma coisa sempre é melhor do que não fazer nada (DT, 116).

Pelo trabalho ou pelo empenho em transformar estruturas injustas, bem como pelo gesto simples e próximo de ajuda, o pobre poderá sentir que as palavras de Jesus: “Eu te amei” (Ap 3,9) são para ele. Assim, cada ação, seja coletiva ou pessoal, torna presente esse amor que acolhe e dignifica quem mais precisa.

Releia o cap. 5 da Dilexi Te, um permanente desafio, e responda:

1) Como aparece a noção de opção pelos pobres no coração da Igreja?

2) Quais as consequências e como assumir o papel de samaritano nos nossos dias?

2) Como as noções de trabalho e esmola aparecem vinculados entre si e que desafios aparecem nesta direção no contexto atual?

Eduardo Martello, Guernickson e Neri Mezadri[1]

[1] Acadêmicos e professor do Bacharelado em Teologia da Itepa Faculdades.