FÁTIMA - SINAL DE ESPERANÇA PARA O NOSSO TEMPO

Data:   27-04-2017

FÁTIMA - SINAL DE ESPERANÇA PARA O NOSSO TEMPO

 

Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa no Centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima

 

No centenário das aparições da Virgem Maria, em Fátima, desejamos dar graças a Deus por nos permitir viver este acontecimento, que nos enche de júbilo, e reafirmar a atualidade da sua mensagem para a revitalização da nossa fé e do nosso compromisso evangelizador.

 

O centenário das aparições de Fátima

 

As aparições

1. As aparições tiveram lugar na Cova da Iria, no ano de 1917, com três crianças entre os sete e os dez anos de idade, Lúcia, Francisco e Jacinta, como protagonistas. O contexto nacional e internacional era dramático: Portugal atravessava uma crise política, religiosa e social profunda e a Europa estava, como nunca antes na sua história, imersa numa guerra mundial, em que também o nosso país estava envolvido.

No ano de 1916, as mesmas crianças já tinham sido testemunhas de três manifestações de um anjo que se apresentou como Anjo da Paz e Anjo de Portugal. Em 13 de maio de 1917, foram testemunhas da aparição da Senhora «mais brilhante que o sol»1 no cimo de uma azinheira. Convidou-as a regressar àquele mesmo lugar no dia 13 dos meses seguintes, até outubro. E ao longo destes encontros, comunicou-lhes uma mensagem de misericórdia e paz, depois transmitida através dos interrogatórios a que as crianças desde o princípio foram submetidas e das Memórias escritas pela Lúcia anos mais tarde.

Assim que a notícia se divulgou, multiplicaram-se as reações. Muitos acorreram ao local, dando crédito ao testemunho das crianças; mas houve também dúvidas, incompreensões e mesmo perseguições, que tantos sofrimentos causaram aos pastorinhos. Entretanto, eram cada vez mais os que acorriam no dia de cada aparição, sempre a 13 de cada mês, à exceção de agosto, em que a aparição foi adiada uns dias, devido à prisão dos videntes. A última deu-se a 13 de outubro, na presença de cerca de setenta mil pessoas, umas crentes, outras céticas, para verem o sinal prometido pela Virgem, o chamado “milagre do sol”, divulgado pela imprensa da época.

Poucos anos depois, os três videntes deixam a sua terra: os dois mais novos, os irmãos Francisco e Jacinta, morrem de uma epidemia de gripe, respetivamente em 1919 e 1920; a sua prima Lúcia, aconselhada pelo bispo de Leiria, afastou-se em 1921 para iniciar a sua formação, acabando por se recolher à vida religiosa. Faleceu em 2005, no Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra.

A fama de santidade de Francisco e de Jacinta cedo se espalhou pelo mundo inteiro e foram beatificados no ano 2000, sendo as primeiras crianças não-mártires. Em 2008 iniciou-se o processo de beatificação de Lúcia, abreviando, por concessão do papa Bento XVI, os prazos canónicos requeridos.

 

A receção do acontecimento e da mensagem de Fátima

 

2. No acontecimento de Fátima teve um papel decisivo o sensus fidei dos batizados, cuja função eclesial foi destacada pelo Concílio Vaticano II e revalorizada pelo papa Francisco: «Como parte do seu mistério de amor pela humanidade, Deus dota a totalidade dos fiéis com um sentido da fé – o sensus fidei – que os ajuda a discernir o que vem realmente de Deus. A presença do Espírito confere aos cristãos uma certa conaturalidade com as realidades divinas e uma sabedoria que lhes permite captá-las intuitivamente»2.

O povo de Deus começou desde muito cedo a reunir-se ao pé da azinheira para rezar. E em 1919 torna possível a edificação de uma capelinha, como havia pedido Nossa Senhora. É ele quem responde com atos de desagravo aos ataques e profanações dos adversários, de que é exemplo a dinamitação da capelinha, em 6 de março de 1922. A capela foi novamente reerguida e consagrada em 13 de janeiro de 1923. Paulatinamente, foram-se ampliando e consolidando o culto e as práticas de piedade naquele lugar.

Finalmente, o bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, apoiando-se no Relatório de uma Comissão Canónica por ele nomeada, publicou, em 13 de outubro de 1930, a Carta Pastoral «A Providência Divina» sobre o Culto de Nossa Senhora de Fátima, declarando como dignas de crédito as visões das três crianças e permitindo oficialmente o culto de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Nas palavras do cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira, «não foi a Igreja que impôs Fátima, foi Fátima que se impôs à Igreja»3. De facto, a devoção a Nossa Senhora do Rosário de Fátima e a espiritualidade que brota da sua mensagem rapidamente passaram a marcar a pastoral da Igreja em Portugal e em todo o mundo.

A mensagem é essencialmente um dom inefável de graça, misericórdia, esperança e paz, que nos chama ao acolhimento e ao compromisso. Esta interpelação à Igreja a que responda ao dom misericordioso de Deus está profundamente vinculada aos dramas e tragédias da história do século XX, mas conserva ainda a mesma força e exigência para os crentes do nosso tempo.

Em sintonia com a piedade do nosso povo e sob a iluminação do Espírito Santo, nós, os bispos, sentimos a responsabilidade de aprofundar o significado deste acontecimento, de destacar a sua atualidade para a nossa vida cristã e de explicitar as suas potencialidades para nutrir a nossa conversão espiritual, pastoral e missionária.

 

Uma bênção para a Igreja e para o mundo

 

Dom e interpelação

3. O ciclo das aparições de 1917 encerrou em 13 de outubro e as últimas palavras do relato de Lúcia, na sua “Quarta Memória”, falam da bênção então dirigida ao mundo: «Desaparecida Nossa Senhora, na imensa distância do firmamento, vimos, ao lado do sol, S. José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco, com um manto azul. S. José com o Menino pareciam abençoar o Mundo com uns gestos que faziam com a mão em forma de cruz. Pouco depois, desvanecida esta aparição, vi Nosso Senhor e Nossa Senhora [...]. Nosso Senhor parecia abençoar o Mundo da mesma forma que S. José»4.

Esta bênção vinha sendo anunciada pelos pastorinhos desde os meses precedentes5. E não era algo apenas para eles, mas para a humanidade inteira. Essa bênção era a motivação de quanto estava a acontecer e permite-nos penetrar no núcleo da iniciativa de Deus que, na presença cheia de luz e de beleza da Virgem Maria, mostrava a sua proximidade misericordiosa, junto do seu povo peregrino.

No meio de situações verdadeiramente dramáticas, quando muitos contemporâneos estavam dominados pela angústia e a incerteza, quando a força do mal e do pecado parecia impor o seu domínio, a Virgem Maria faz brilhar em todo o seu esplendor a vontade salvífica de Deus, uma bênção que revela a extensão da sua ternura a todas as criaturas. O seu convite à conversão, à oração e à penitência pretende desbloquear os obstáculos que impedem os seres humanos de experimentar uma bondade que procede de Deus e foi depositada no coração humano.

A Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa mãe, sai ao encontro dos seus filhos peregrinos a partir da glória da ressurreição de seu filho Jesus, para lhes oferecer consolação, estímulo e alento. Envolvidos por essa bênção, os três pastorinhos mostraram-se dispostos, pela boca de Lúcia, a serem louvor da glória de Deus e a entregarem-se plenamente aos desígnios de misericórdia que Deus manifestava através das aparições.

 


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